O preço da saúde virou alvo
A farmácia, que deveria ser um porto seguro para a saúde da população, tem se tornado um dos pontos mais vulneráveis da nossa sociedade. Infelizmente, não são apenas os medicamentos que estão sendo levados dos balcões; vidas estão sendo ceifadas. A trágica morte da farmacêutica Karina Aparecida Ribeiro de Souza, de 38 anos, vítima de uma tentativa de assalto em Santana (SP) no último sábado (28/02), é o mais recente e doloroso retrato de uma crise que se agrava dia após dia .
Não podemos tratar este caso como um fato isolado. Estamos diante de um cenário alarmante, impulsionado pela explosão da demanda e pelo alto valor de mercado de medicamentos como Ozempic®, Wegovy® e Mounjaro® — as chamadas “canetas emagrecedoras”. O que era para ser uma revolução no tratamento da obesidade virou objeto de cobiça do crime organizado, transformando nossas farmácias em alvos preferenciais e colocando profissionais e pacientes em risco .

A Roleta-Russa nos Balcões: O Risco não é Apenas para os Funcionários
Quando uma quadrilha armada invade uma farmácia em busca desses produtos de alto custo, o perigo é imediato e visível. Mas o problema não se encerra na porta do estabelecimento. O destino desses medicamentos roubados é um mercado paralelo e criminoso que opera com total desprezo pela saúde pública.
E é a população que paga o preço mais alto.
Ao adquirir uma caneta emagrecedora de origem duvidosa, em feiras livres, redes sociais ou pela internet sem procedência, o consumidor está fazendo uma verdadeira roleta-russa com a própria saúde . Estudos mostram que produtos falsificados ou de baixa qualidade apresentam desde falhas na concentração do princípio ativo (variando entre 7,7% e 14,37%, muito abaixo dos 99% anunciados) até a presença de endotoxinas, substâncias tóxicas capazes de provocar reações adversas graves .
Além disso, muitos desses medicamentos, como as canetas, exigem refrigeração entre 2°C e 8°C. Uma vez roubados, são armazenados e transportados de forma inadequada, perdendo completamente a eficácia terapêutica e se tornando produtos inertes ou, na pior das hipóteses, perigosos para quem os utiliza .
Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), medicamentos como Mounjaro, Keytruda (para câncer) e até toxinas botulínicas estão entre os mais falsificados, e o roubo é uma das principais portas de entrada para esse comércio ilegal . O dado é ainda mais assustador: a Anvisa registrou o roubo ou perda de 8.220 canetas de Ozempic apenas em 2024 .
O Sistema CFF/CRFs na Linha de Frente?
Diante desse cenário de guerra, o Sistema CFF/CRFs não tem se omitido. Pelo contrário, tem atuado em diversas frentes para proteger não apenas os profissionais, mas a própria sociedade, porém de forma ainda discreta, e desorganizada.
Em primeiro lugar, a posição firme cobrança às autoridades de segurança pública. O presidente do CFF, Walter Jorge João, já se manifestou publicamente, exigindo respostas firmes e medidas efetivas para conter a escalada de violência, mas qual a articulação que tem feito para isso? Só publicar pedidos de respostas sem profundidade política, não é efetivo.
Mas a nossa atuação política vai além.
Estamos vigilantes no Congresso Nacional contra projetos de lei que fragilizam a assistência farmacêutica e precarizam a nossa profissão. Um exemplo claro é o PL 5363/2020, que tenta retirar o farmacêutico das farmácias sob o pretexto da telefarmácia .
Lutamos contra esse tipo de proposta porque sabemos, na prática, que a presença do farmacêutico é uma barreira de segurança. É o profissional capacitado que pode orientar o paciente, verificar a procedência de um medicamento, identificar possíveis falsificações e garantir a entrega segura de um item controlado. Enfraquecer a nossa presença é dar asas ao mercado ilegal e expor ainda mais a população aos riscos que descrevemos acima .

O que Está em Jogo?
Não se trata apenas de números de assaltos, que já são assustadores — só na capital paulista, foram 206 ocorrências entre janeiro e setembro de 2025 . Trata-se de vidas. Vidas de profissionais como Karina, como a farmacêutica baleada na cabeça no Pará no último dia 27, e como Patrícia Helena Duarte, outras vítimas dessa violência absurda .
Trata-se, também, da saúde de milhares de brasileiros que, seduzidos por preços baixos e promessas milagrosas nas redes sociais, podem estar injetando em seus corpos substâncias adulteradas, falsificadas ou degradadas, sem qualquer eficácia e com alto potencial de dano .
O Sistema CFF/CRFs precisa ser mais firme. Cobrando das redes de farmácia a implementação de protocolos de segurança robustos, exigindo das autoridades políticas públicas eficazes e combatendo, no legislativo, qualquer tentativa de desvalorizar o papel do farmacêutico.
Convidamos você, profissional, e a população, a se juntarem a nós nessa luta. Denuncie! Não compre medicamentos de origem duvidosa. Desconfie de preços muito abaixo do mercado e exija a nota fiscal e a orientação de um farmacêutico.
A farmácia precisa ser um local de cura, não de risco. E enquanto houver uma caneta sendo vendida ilegalmente ou um colega em perigo, estaremos na linha de frente para defender a saúde e a segurança de todos.