O Museu dos Amanhãs
Personagem:
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ELIAS (60 anos): Um homem de aparência cansada, vestindo um cardigã surrado. Seus olhos brilham com uma inteligência que nunca encontrou vazão.
Cenário: Um escritório pequeno e claustrofóbico. Há pilhas de cadernos, instrumentos musicais empoeirados, telas de pintura em branco e mapas-múndi na parede com alfinetes em lugares que ele nunca visitou. O som de um relógio de pêndulo é alto e constante: tique-taque, tique-taque.
(A cena abre com ELIAS sentado diante de uma mesa cheia de papéis. Ele segura uma caneta, mas não escreve. Ele encara uma caixa de papelão aberta à sua frente, rotulada “Projetos de Verão – 1985”.)
ELIAS (Passando a mão sobre a caixa, voz rouca) Engraçado como o pó tem o mesmo peso do chumbo quando se acumula por quarenta anos.
(Ele tira um caderno de capa azul da caixa. Abre-o com cuidado, como se fosse uma relíquia sagrada.)
ELIAS Aqui… página quatro. O esboço da minha grande sinfonia. Eu tinha o primeiro movimento inteiro na cabeça. Dó menor. Era para ser trágico, grandioso. (Pausa breve) Eu só precisava comprar um piano melhor. Foi o que eu disse a mim mesmo. “Quando eu tiver o piano certo, a música sai”.
(Ele solta o caderno na mesa com um baque surdo. Pega um pincel seco de um copo.)
ELIAS E aqui… o pintor. Eu ia capturar a luz da Toscana. Estudei a teoria das cores por três anos. Li Goethe, li Kandinsky. Eu sabia tudo sobre a arte, exceto como ter coragem de manchar a tela em branco. O branco sempre parecia… perfeito demais para ser estragado pela minha tentativa.
(Ele se levanta, caminhando pelo quarto, tocando os objetos como se fossem fantasmas.)
ELIAS Dizem que o cemitério é o lugar mais rico do mundo, cheio de livros não escritos e curas não descobertas. Mas este quarto… ah, este quarto compete com qualquer cemitério.
(Ele para diante de um espelho sujo.)
ELIAS Eu sou o arquiteto do “semana que vem”. O imperador do “quando as coisas se acalmarem”. Eu vivi mil vidas, todas elas magníficas, todas elas vibrantes… e todas elas trancadas aqui dentro (toca a têmpora). Ninguém nunca viu. Ninguém nunca ouviu.
(Ele ri, um som seco, sem humor.)
ELIAS O perfeccionismo é apenas o medo usando sapatos de luxo. Eu queria tanto que fosse perfeito que preferi que não existisse. E agora? Agora o “amanhã” virou “ontem” e eu nem percebi a troca dos turnos.
(O relógio de pêndulo toca a hora cheia. O som é grave e final.)
ELIAS (Senta-se novamente. Pega a caneta. Aproxima-se do papel em branco.) Só mais um plano. Só mais um esboço. Desta vez vai ser diferente. Desta vez…
(A mão dele treme. Ele não encosta a caneta no papel. A luz diminui lentamente sobre ele, congelado no gesto da eterna preparação, enquanto o relógio continua.)
ELIAS (Sussurrando) …segunda-feira eu começo.