Prof Cristiano Ricardo

Professor, Farmacêutico-Bioquímico, Escritor, Curioso
e falta ar

I. 

A madrugada ainda é um vinco surdo

No rosto de quem não viu o sono vir.

O café ferve no lume baixo do mundo,

E a cidade é um muro que ele insiste em não ler.

Na esquina, a sombra tropeça em seu passo,

A camisa é uma mortalha, engolindo o suor —

E a segunda-feira, um laço de aço,

Que aperta o peito, aperta sempre pior.

 

II.

O ônibus vem feito gaveta lotada,

E nele, o corpo se espreme na dor sem cor.

No bolso, um sonho em folha amassada,

Amargurado pelo eco de tanto rumor.

As horas empilham pilhas de cascalho,

Subindo a íngreme ladeira do dia em vão.

E cada “não” do acaso, feito retalho,

É uma laje de ironia sobre o ombro.

 

Refrão

E falta o ar

Quando o mundo é um navio prestes a desabar.

Onde o futuro é um risco rente ao chão

Que não promete paz ou solução.

Falta o ar,

A esperança é um cão sem dono a descansar.

E ele, sozinho no seu abandono,

Tenta inventar o fôlego a esmo,

Mesmo sem ter por onde olhar.

 

III. 

Volta pra casa na noite tardia e surda,

Com o peso de um dia sem pão ou vez.

O poste ilumina a fadiga, tão crua,

De quem tenta ser forte uma última vez.

A chave morde a fechadura na porta,

Como se o mundo quisesse um “não” dizer.

E a vida, madrasta tão dura e torta,

Ri de sua agonia por trás do portão.

 

IV. 

A mesa, o prato é um silêncio de ausência;

A noite é um bicho sem dó, à solta na escuridão.

A mente, um redemoinho de demência,

Levando as certezas pro pó e a paz à revolta.

Deita com o peito oprimido e apertado,

No escuro, ninguém verá o pranto calar.

O teto, um céu de chumbo, pesado,

E o ar — começa a faltar, a estranhar.

 

Refrão

Falta o ar

Quando a vida insiste em se desmanchar.

Onde o amanhã é fumaça e vão,

Que se dissipa na palma da mão. Falta o ar,

O peito é um grito que não pode se explicar.

O mundo inteiro desliga em sua mão,

E só sobra o assoalho a ranger, o respirar.

 

Ponte

Mas ele guarda um resto de bruma e lume

No fundo do olhar que não se deixou quebrar.

Um quase-nada que insiste em seu costume:

Não se desmanchar no ar, não se entregar.

E ainda que o dia o esmague e esfolague,

Como açoite sem hesitar, de mansidão,

Ele se ergue, ajeita a algibeira, a bagagem,

E inventa outra vez… uma nova canção.

 

Refrão Final

Mesmo sem ar,

Mesmo com o chão a afinar,

Ele caminha, lento, a caminhar,

Fazendo do peito um violão. ]

Para continuar…

Para respirar.

e falta ar…

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