e falta ar
I.
A madrugada ainda é um vinco surdo
No rosto de quem não viu o sono vir.
O café ferve no lume baixo do mundo,
E a cidade é um muro que ele insiste em não ler.
Na esquina, a sombra tropeça em seu passo,
A camisa é uma mortalha, engolindo o suor —
E a segunda-feira, um laço de aço,
Que aperta o peito, aperta sempre pior.
II.
O ônibus vem feito gaveta lotada,
E nele, o corpo se espreme na dor sem cor.
No bolso, um sonho em folha amassada,
Amargurado pelo eco de tanto rumor.
As horas empilham pilhas de cascalho,
Subindo a íngreme ladeira do dia em vão.
E cada “não” do acaso, feito retalho,
É uma laje de ironia sobre o ombro.
Refrão
E falta o ar
Quando o mundo é um navio prestes a desabar.
Onde o futuro é um risco rente ao chão
Que não promete paz ou solução.
Falta o ar,
A esperança é um cão sem dono a descansar.
E ele, sozinho no seu abandono,
Tenta inventar o fôlego a esmo,
Mesmo sem ter por onde olhar.
III.
Volta pra casa na noite tardia e surda,
Com o peso de um dia sem pão ou vez.
O poste ilumina a fadiga, tão crua,
De quem tenta ser forte uma última vez.
A chave morde a fechadura na porta,
Como se o mundo quisesse um “não” dizer.
E a vida, madrasta tão dura e torta,
Ri de sua agonia por trás do portão.
IV.
A mesa, o prato é um silêncio de ausência;
A noite é um bicho sem dó, à solta na escuridão.
A mente, um redemoinho de demência,
Levando as certezas pro pó e a paz à revolta.
Deita com o peito oprimido e apertado,
No escuro, ninguém verá o pranto calar.
O teto, um céu de chumbo, pesado,
E o ar — começa a faltar, a estranhar.
Refrão
Falta o ar
Quando a vida insiste em se desmanchar.
Onde o amanhã é fumaça e vão,
Que se dissipa na palma da mão. Falta o ar,
O peito é um grito que não pode se explicar.
O mundo inteiro desliga em sua mão,
E só sobra o assoalho a ranger, o respirar.
Ponte
Mas ele guarda um resto de bruma e lume
No fundo do olhar que não se deixou quebrar.
Um quase-nada que insiste em seu costume:
Não se desmanchar no ar, não se entregar.
E ainda que o dia o esmague e esfolague,
Como açoite sem hesitar, de mansidão,
Ele se ergue, ajeita a algibeira, a bagagem,
E inventa outra vez… uma nova canção.
Refrão Final
Mesmo sem ar,
Mesmo com o chão a afinar,
Ele caminha, lento, a caminhar,
Fazendo do peito um violão. ]
Para continuar…
Para respirar.
e falta ar…