Oito Milhões de Vizinhos e Ninguém para Conversar — Caderno de Vida (2011)
O paradoxo de viver comprimido em trens e elevadores lotados e sentir-se completamente esquecido no universo; a sede de afeto humano. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a solidão urbana no meio da multidão.
Olho para os prédios vizinhos da minha sacada às dez da noite. São centenas de retângulos iluminados empilhados até o céu, cada um deles abrigando vidas completas: jantares em família, lágrimas no travesseiro, discussões apaixonadas, risos diante da tevê e silêncios pesados. Vivemos a três metros de distância do nosso semelhante, separados apenas por uma parede de gesso e alvenaria, e muitas vezes não sabemos sequer o primeiro nome de quem mora ao lado.
O vagão do metrô nos horários de pico é a ilustração perfeita dessa solidão coletiva. Dezenas de corpos colados uns aos outros, respirando o mesmo ar úmido, mas todos rigorosamente isolados em suas próprias redomas acústicas: fones de ouvido volumosos, cabeças curvadas sobre as telas brilhantes e uma recusa tácita e obstinada em trocar um simples olhar de cumplicidade.
Temos milhares de seguidores em redes sociais, dezenas de mensagens acumuladas em grupos de conversa, e no entanto nunca tantas pessoas morreram de tristeza e abandono dentro dos próprios apartamentos. Desaprendemos a puxar conversa na fila do pão, desconfiamos de quem nos dá bom-dia na calçada e transformamos a prudência necessária em couraça de isolamento.
A cura para esse deserto urbano não depende de novas plataformas digitais, mas de uma revolução da presença. É o bom-dia sincero ao porteiro, o cumprimento afetuoso ao vizinho idoso que desce sozinho com a sacola de feira e a disponibilidade para ouvir alguém sem olhar o relógio. O calor humano é o único remédio capaz de descongelar a frieza do concreto.
“A pior solidão não é a do eremita no deserto, mas a do homem que cruza olhares com milhares de pessoas sem que ninguém veja a sua dor.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a solidão urbana no meio da multidão
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 21/12/2011 às 03:17
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