O Termômetro Partido e o Grito dos Rios — Crônica Existencial (2021)
O descompasso das estações, o calor asfixiante fora de época e a fatura inevitável que a biosfera está cobrando da ganância predatória. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre mudança climática e a febre da terra.
Antigamente, quando os mais velhos falavam do tempo, havia uma cadência de estações que parecia esculpida em bronze: o outono trazia a brisa fresca, o inverno pedia o cobertor pesado e a primavera anunciava as chuvas regulares que engordavam os pomares. Hoje, o céu perdeu o pudor e a estabilidade. O calor de janeiro explode em pleno inverno, o ar se enche da fumaça acre de florestas calcinadas e tempestades bíblicas arrancam em duas horas o que a gente levou décadas para construir.
Não se trata de um capricho meteorológico ou de um ciclo aleatório da natureza; trata-se da febre alta de um organismo vivo que foi agredido até a medula. Serraram as copas que transpiravam a umidade da atmosfera, canalizaram os rios sob lajes de concreto para abrir pistas de asfalto e queimaram hidrocarbonetos como se a atmosfera fosse um esgoto infinito sem teto nem fundo.
O mais perverso dessa tragédia é que os arquitetos do desastre climático dormem em coberturas climatizadas com filtros de ar e geradores próprios, enquanto a conta da catástrofe recai com fúria sobre os moradores das encostas, sobre o agricultor familiar cuja lavoura virou pó e sobre as crianças das periferias que sufocam nas emergências pediátricas.
A natureza não faz reuniões de cúpula nem aceita promessas protocolares para 2050. Ela cobra em moeda física: em volume de água, em grau Celsius, em solo desértico. Ou aprendemos a pisar no chão com a reverência dos povos originários — que entendem a árvore como irmã e a água como mãe —, ou a história humana terminará como uma nota de rodapé tragicômica no grande livro da Terra.
“A Terra não pertence à ambição das corporações; somos nós que dependemos da generosidade frágil de cada gota de chuva para continuar respirando.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre mudança climática e a febre da terra
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 18/07/2021 às 02:58
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