O Marceneiro, a Farinha e a Lição da Paciência — Diário do Tempo (2021)
A beleza dos trabalhos feitos com esmero, tempo e afeto manual em oposição ao plástico descartável e instantâneo da era digital. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o resgate do fazer humano com alma.
Observei durante uma hora um velho sapateiro no seu cubículo na galeria do centro. Seus dedos eram escuros da cera e marcados por décadas de lâminas e sovelas; no entanto, a delicadeza com que ele examinava a sola de couro de um sapato desgastado tinha a solenidade de um cirurgião cardíaco. Não havia pressa no seu movimento: cortava, lixava, passava a cola com calma e batia o martelo no ritmo compassado de um relógio antigo.
Vivemos na era do produto plástico, feito aos milhões por máquinas robotizadas em algum ponto distante do globo, projetado para durar dezoito meses e quebrar logo em seguida para alimentar o ciclo infindável do descarte. Perdemos o contato com a matéria viva: com o calor da madeira bem lixada, com o cheiro da farinha que fermenta por doze horas antes de virar pão, com a resistência do ferro forjado na bigorna.
O ofício tradicional carrega em si uma lição filosófica profunda: ele nos ensina que as coisas boas da vida exigem tempo de maturação. Não há atalhos tecnológicos para fazer uma mesa que resista a quatro gerações de reuniões familiares; é preciso respeitar a fibra da árvore, os nós da prancha e a secagem da cola.
Quando um profissional executa sua tarefa com esse desvelo amoroso — seja consertando um par de botas, lecionando uma aula ou cozinhando para a família —, ele não está apenas trocando tempo por dinheiro: está esculpindo sentido e dignidade na própria existência.
“Colocar a própria alma naquilo que as mãos moldam é a maneira mais pura de deixar uma marca de amor e perenidade no mundo.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o resgate do fazer humano com alma
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 04/01/2021 às 03:04
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