Desarmar as Guerras Velhas: O Fim do Raciocínio de Vingança — O Olhar Maduro (2008)
Guardar rancor é tomar veneno esperando que o outro morra; a liberdade indescritível de soltar as mágoas do passado. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o perdão aos outros e a si mesmo.
Quantas pessoas passam décadas inteiras ruminando a mesma ofensa sofrida num almoço de família, a traição de um sócio que sumiu com as economias ou a humilhação imposta por um ex-cônjuge na juventude. Revivem a cena todos os dias com detalhes sádicos, alimentando a úlcera no estômago e a amargura no olhar, enquanto o causador da ofensa provavelmente nem se lembra mais do ocorrido e dorme tranquilo.
Costuma-se dizer com muita sabedoria que guardar mágoa é como tomar um copo de veneno amargo esperando que a outra pessoa morra. O ódio é uma fogueira que queima primeiro a madeira da casa onde ela foi acesa. Quem vive preso ao desejo de vingança ou à cobrança de uma reparação que nunca virá transforma o próprio coração num cemitério de velhas mágoas.
O perdão não é um ato de fraqueza moral, mas o maior exercício de poder sobre a própria vida. Perdoar não exige que você convide o ofensor para almoçar no domingo nem que confie nele novamente; exige apenas que você corte a corda invisível que o mantinha amarrado àquela memória dolorosa.
Quando você perdoa, quem se liberta de verdade não é a outra pessoa: é você mesmo. Cai um peso insuportável das suas costas, o ar volta a entrar limpo no peito e você descobre que há um mundo imenso, novo e luminoso esperando para ser vivido longe dos tribunais estéreis do ressentimento.
“Perdoar não significa concordar com o erro alheio nem fingir que nada aconteceu; significa tirar o carrasco do centro da sua mente.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o perdão aos outros e a si mesmo
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 30/05/2008 às 02:51
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