A Xícara de Chá e o Relógio Quebrado: Um Conto sobre a Ansiedade (Narrativa 2025)
Uma história de afeto, escuta e resiliência humana sobre acalento na tempestade da ansiedade.
Mateus vivia com a sensação crônica de que estava irremediavelmente atrasado. Mesmo nas manhãs calmas de domingo, acordava com o pulso acelerado, como se houvesse uma sirene silenciosa tocando no fundo de sua caixa torácica. Sua mente operava a cem quilômetros por hora, antecipando tragédias que jamais ocorriam, catalogando falhas hipotéticas e respondendo a cobranças invisíveis.
Naquela noite chuvosa de outono, ao tentar adiantar um relatório em seu escritório, a luz falhou. Um estrondo suave no transformador da esquina mergulhou a casa em uma escuridão macia e absoluta. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor para alguém acostumado ao zumbido contínuo das telas.
Sem internet e sem compromissos inadiáveis possíveis, Mateus acendeu uma vela solitária na cozinha. Pegou o bule de cerâmica e preparou, sem pressa pela primeira vez em anos, um chá de capim-limão e camomila. Sentou-se diante da janela e observou a dança das gotas escorrendo no vidro. Ao seu lado, o velho relógio de corda da parede parou nos ponteiros cruzados às onze e quarenta.
Pela primeira vez em meses, sentiu o ar encher a base de seus pulmões. Percebeu o calor da xícara entre as palmas frias, o aroma cítrico subindo em espirais tênues. Descobriu que, quando retiramos o combustível da urgência ilusória, a ansiedade perde seu trono. A tempestade continuava lá fora, mas dentro de si um porto sereno acabava de nascer.
Mensagem Terapêutica: Toda dor humana merece ser acolhida com paciência. Cuidar da saúde mental é reconhecer a própria humanidade e abrir espaço para o tempo, o afeto e a reconstrução.
Contista, Poeta & Pesquisador em Saúde Mental · Publicação de 29/06/2025 às 23:42








