A televisão virou bula, os "milagres" de Grau II e a vista grossa da vigilância
Faça o teste: ligue a televisão em um domingo à tarde ou numa madrugada qualquer e tente não comprar a juventude eterna. É uma tarefa quase impossível. O Brasil consolidou um modelo de programação onde ´há canais inteiros parecem ter virado balcões de farmácia, transmitindo horas ininterruptas de promessas engarrafadas. São "suplementos" que prometem curar desde a dor na lombar até a calvície, e "cosméticos" que, se fizessem metade do que os apresentadores gritam no microfone, deveriam ganhar o Prêmio Nobel de Medicina.
Aí a gente para, lê as letrinhas miúdas (quando elas existem) e descobre a grande piada: estamos diante de cosméticos de Grau II.
Para quem vive o rigor da química cosmética e o dia a dia das formulações, a experiência é no mínimo surreal. Conduzir avaliações clínicas sérias de cuidados com a pele exige testes de estabilidade, controle de pH, análise de permeação e um respeito profundo pela barreira cutânea. Mas, na tela da TV, um creme hidratante básico ganha contornos de cirurgia plástica não invasiva. O apresentador chora, a plateia aplaude, e o cosmético que deveria apenas hidratar a epiderme é vendido como a cura definitiva para o envelhecimento celular.
E a pergunta que ecoa na sala de estar é: como a vigilância sanitária assiste a isso e acha que está tudo bem?
A ausência de uma política pública firme de fiscalização da publicidade em saúde transforma a televisão aberta em um faroeste. Temos regras maravilhosas no papel, mas, na prática, o Estado parece tratar a desinformação televisiva com a mesma urgência de quem deixa a louça de molho para lavar no dia seguinte.
O buraco, no entanto, é muito mais embaixo. Além do golpe no bolso do consumidor — que muitas vezes abandona tratamentos reais e medicamentos essenciais para apostar no "milagre" do 0800 —, há um custo ambiental trágico. Pense na logística absurda: caminhões cruzando o país queimando combustível fóssil para entregar toneladas de potes plásticos e frascos não recicláveis, cheios de formulações vazias de ciência e distantes de qualquer base verde ou sustentável. É a industrialização do efeito placebo gerando lixo real.
Quando o Estado permite que o entretenimento seja disfarçado de prescrição clínica, ele terceiriza o adoecimento. O paciente compra a ilusão na TV, não tem o resultado esperado, a saúde piora e, no fim da linha, adivinha quem vai acolher essa demanda? Sim, o sistema público de saúde.
Precisamos de políticas de proteção que mudem de canal. Afinal, a saúde verdadeira não é vendida em lotes promocionais na madrugada, e a fiscalização não pode continuar assistindo a esse teatro com o controle remoto na mão e no modo mudo.








