A Tarde em que o Barão Perdeu o Bonde no Viaduto do Chá (Crônica Urbana 2025)
Chovia fino. Aquela garoa paulistana que não molha o corpo com decência, mas tem a vocação obstinada de oxidar a paciência humana.
O homem de terno risca-de-giz olhava o relógio de pulso como se o ponteiro dos segundos lhe devesse dinheiro desde a crise de 1929.
No Viaduto do Chá, ninguém caminha. As pessoas deslizam, arrastadas pela força gravitacional de compromissos que esquecerão na sexta-feira à noite.
Dizem que o Barão de Mauá, se por ali passasse hoje com suas botas de cano alto e seus sonhos de ferrovia a vapor, encostaria na mureta de ferro e pediria um pingado com pão na chapa no boteco da esquina, só para ter certeza de que o progresso, no Brasil, é sempre uma linda locomotiva puxando vagões com freio de mão puxado.
Um vendedor de guarda-chuvas que quebram na primeira rajada gritava seu pregão bíblico.
Cinco reais a salvação temporária. Dez reais a ilusão de permanecer seco.
O homem do terno comprou. Abriu o artefato com a solenidade de quem assina a Lei Áurea. Três passos adiante, uma lufada de vento virou as varetas de arame para cima, transformando o escudo em antena parabólica de goteira.
Ele não xingou.
Apenas sorriu com aquele sarcasmo resignado que só os sobreviventes da Praça da Sé adquirem após dez anos de transporte público: compreendeu que São Paulo não perdoa quem tenta ser mais rápido que o destino.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 12/04/2025 às 02:15.








