A Sombra que Cresce na Madrugada e o Resgate da Coragem — O Olhar Maduro (2007)
O terror silencioso do fracasso, da perda e da finitude; como a coragem autêntica só floresce quando acolhemos o medo sem fingir fortaleza. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre o medo e os labirintos da incerteza.
Às três da manhã, os problemas não têm proporção real. Uma pendência bancária vira a ruína iminente da família; uma dor estranha na costela transforma-se no diagnóstico de uma enfermidade incurável; e a incerteza quanto ao futuro ganha os contornos de um abismo sem fundo. O medo adora a escuridão do quarto e o silêncio da casa, porque é aí que ele projeta seus monstros com lente de aumento.
Passamos a vida tentando erguer muros contra a vulnerabilidade. Compramos apólices de seguro, trancamos as portas com travas eletrônicas, acumulamos economias com obsessão e tentamos controlar o comportamento das pessoas que amamos, tudo na esperança pueril de estancar a imprevisibilidade da existência. É uma ilusão cara: a vida é risco por definição, do primeiro choro na maternidade ao último suspiro no leito.
O verdadeiro mal do medo não é o arrepio que ele provoca no estômago, mas a sua capacidade de nos apequenar. O homem tomado pelo pavor aceita o emprego humilhante, tolera o governante autoritário, cala-se diante da injustiça e renuncia aos seus grandes sonhos só para não ter de cruzar a ponte da incerteza.
Quando acendemos a luz e olhamos a fera nos olhos, descobrimos que quase todo medo é uma projeção imaginária do ego tentando evitar a dor da perda. E a única cura conhecida contra essa paralisia é dar o passo, mesmo com as pernas trêmulas. Quem espera a coragem chegar para agir morre na antecâmara dos seus desejos; a coragem só vem depois que o primeiro passo já foi dado.
“Coragem não é a ausência de temor, mas a decisão sagrada de que há coisas infinitamente mais preciosas do que o conforto de se esconder.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre o medo e os labirintos da incerteza
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 13/09/2007 às 02:33
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