A Senha de Papel e a Humilhação dos Invisíveis — As Estações da Alma (2024)
A maratona desumana de quem trabalhou a vida inteira e precisa implorar por um benefício negado por algoritmos cegos. Uma crônica sensível e profunda por Cristiano Ricardo sobre a luta silenciosa pelo reconhecimento de direitos.
Dona Antônia segurava o papelzinho térmico com a senha B-147 como se segurasse a escritura de sua própria vida. E era quase isso: aguardava há mais de dois anos pela perícia médica que decidiria se sua artrose crônica nos joelhos, adquirida em trinta e oito anos de trabalho como faxineira de escola pública, lhe dava direito ao auxílio-doença.
O painel digital emitia um bipe estridente a cada vinte minutos, convocando mais um desvalido para o guichê. Do outro lado do vidro blindado, funcionários cansados digitavam códigos em telas azuis, aplicando portarias redigidas em Brasília por técnicos que jamais pegaram num rodo ou subiram uma ladeira carregando sacos de mantimentos na cabeça.
A burocracia é a mais eficiente das armas de desumanização porque não tem rosto. Se o sistema indefere o pedido com base no 'parágrafo terceiro do artigo tal', ninguém é pessoalmente culpado pela fome de Dona Antônia. É o algoritmo cego decidindo quem come e quem perece, enquanto as planilhas do governo celebram o 'equilíbrio atuarial das contas públicas'.
Não há nada de virtuoso num sistema que poupa recursos à custa da desgraça dos mais velhos e dos mais frágeis. Uma sociedade decente coloca o bem-estar e a saúde dos seus cidadãos acima de qualquer formalismo fiscal. O Estado que não serve para amparar quem caiu serve apenas para alimentar a sua própria máquina de privilégios.
“Tratar o cidadão que trabalhou quarenta anos como um pedinte incômodo é a maior prova de falência moral do Estado burocrático.”
— Cristiano Ricardo, em reflexão sobre a luta silenciosa pelo reconhecimento de direitos
Olhar para trás e reconhecer cada curva dessa estrada não é um exercício de nostalgia vazia, mas um ato sagrado de reconciliação com a própria história. Que possamos atravessar os dias que ainda virão com o coração desarmado, prontos para lutar pelo que é justo, acolher os que sofrem e celebrar a graça imensa de estar vivos e lúcidos sob a claridade deste céu.
Cristiano Ricardo
Escritor, Cronista & Pensador do Cotidiano · Publicado em 08/11/2024 às 02:42
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