Prof Cristiano Ricardo

Professor, Farmacêutico-Bioquímico, Escritor, Curioso
Incompatibilidades Farmacotécnicas e a Ocorrência de Sinérese em Formulações

Na rotina do desenvolvimento farmacêutico, é comum nos depararmos com desafios relacionados à estabilidade físico-química das formulações. Entre eles, um fenômeno bastante frequente em formas farmacêuticas semissólidas e líquidas é a sinérese, a separação de fases com liberação de líquido na superfície da formulação.

Apesar de parecer um simples “defeito visual”, a sinérese é, na verdade, um indicador de instabilidade que pode comprometer não apenas a aparência e a aceitabilidade do produto, mas também sua uniformidade de dose e eficácia terapêutica.

O que é sinérese?

A sinérese é caracterizada pela expulsão de parte do líquido de uma matriz coloidal, como géis ou suspensões, resultando na separação de fases. Em formulações farmacêuticas, esse fenômeno é frequentemente observado em:

  • Géis hidrofílicos, como os formulados com carbopol ou hidroxietilcelulose;
  • Suspensões aquosas, com agentes espessantes mal compatibilizados;
  • Emulsões instáveis, onde há separação de fases pela perda da integridade da emulsão.

Como as incompatibilidades farmacotécnicas favorecem a sinérese?

A sinérese geralmente está relacionada a incompatibilidades entre componentes da formulação. Alguns exemplos incluem:

  • pH inadequado, que afeta a viscosidade e a estrutura do agente gelificante (ex: carbopol que exige neutralização com pH alcalino);
  • Uso de eletrólitos, que podem romper a rede tridimensional de polímeros gelificantes;
  • Concentrações excessivas ou insuficientes de polímeros, que resultam em uma matriz instável e propensa à separação de fases;
  • Incompatibilidade entre o fármaco e o excipiente, como a interação com tensoativos, solventes ou conservantes.

Outro ponto crítico é a ordem de adição dos componentes durante o processo de preparo. A introdução precoce de ingredientes ácidos ou básicos pode desestabilizar a matriz antes mesmo de sua formação completa.

Consequências tecnológicas e clínicas

A presença de sinérese em uma formulação pode levar a:

  • Perda da uniformidade de dose, especialmente em suspensões ou géis de uso tópico;
  • Desconforto na aplicação, devido à consistência irregular ou excesso de líquido;
  • Rejeição pelo paciente, por alterar a aparência do produto;
  • Redução da eficácia terapêutica, caso o princípio ativo se concentre em apenas uma das fases.

Portanto, é fundamental que o desenvolvimento farmacotécnico leve em conta não apenas a eficácia do fármaco, mas também a compatibilidade entre todos os componentes da formulação.

Deixe comentário