Prof Cristiano Ricardo

Professor, Farmacêutico-Bioquímico, Escritor, Curioso
O Peso do Ar, Neblina Interna ou O Peso do Sofá

Personagem:

  • CLARA (30 anos): Veste roupas confortáveis, mas que usa há dois dias seguidos. Ela não está chorando; sua expressão é de um vazio profundo, uma neutralidade assustadora.

Cenário: Uma sala de estar às 10h da manhã. A luz do sol tenta entrar pelas frestas da cortina fechada, criando linhas de poeira no ar. O ambiente é silencioso, exceto pelo zumbido intermitente de um celular esquecido no chão.


(A cena abre com CLARA sentada no sofá. Ela segura uma xícara. Ela olha para a xícara como se fosse um objeto alienígena. O celular vibra no chão. Ela olha, mas não se move para pegá-lo.)

CLARA (Voz baixa, sem inflexão) Tocou quatro vezes. É a minha mãe. Ou o trabalho. Ou talvez seja só a operadora me oferecendo um plano melhor. Um plano para falar mais, viver mais, conectar mais. (Pausa) Como se eu tivesse voz para gastar.

(Ela coloca a xícara na mesa de centro. O som da cerâmica contra a madeira parece estrondoso no silêncio.)

CLARA As pessoas acham que é tristeza. Elas imaginam uma chuva torrencial, música de violino, lágrimas dramáticas diante do espelho. Mas não é chuva. É neblina. Uma neblina estática, cinza, que entra pela boca e enche o peito até não sobrar espaço para o ar.

(Ela tenta se levantar, mas desiste no meio do movimento, afundando de volta no sofá.)

CLARA A gravidade aqui dentro é diferente. A física não funciona nesta sala. Levantar o braço custa dez quilos de energia. Tomar banho é uma maratona olímpica. Sorrir… sorrir é uma cirurgia complexa que eu tenho que realizar no meu próprio rosto, puxando músculo por músculo, só para que o porteiro não pergunte se estou doente.

(Ela olha para a fresta de luz na cortina.)

CLARA Lá fora o mundo está colorido. Eu sei disso intelectualmente. Sei que a grama é verde e o céu é azul. Mas aqui… é como assistir a vida através de um vidro sujo e grosso. Eu bato no vidro, eu grito, mas o som não sai. Eu sou uma expectadora da minha própria existência.

(O celular vibra novamente. Desta vez, ela chuta o aparelho levemente para longe com o pé, num gesto de irritação fraca.)

CLARA “Você precisa sair”, eles dizem. “Fazer exercícios, ver gente, reagir”. É como dizer a alguém com as duas pernas quebradas que ela só precisa correr um pouquinho para o osso colar. Eles não entendem que a vontade — o motorzinho que faz a gente querer o próximo minuto — pifou. Eu não quero morrer… eu só queria que o botão de “pausa” existisse. Só um silêncio absoluto. Sem culpa. Sem o barulho dos pensamentos repetitivos.

(Ela pega uma almofada e a abraça contra o peito, encolhendo-se em posição fetal.)

CLARA Hoje, a minha vitória vai ser respirar. Só isso. O ar entra, o ar sai. O peito sobe, o peito desce. Talvez amanhã eu consiga abrir a cortina. Talvez. Mas agora… agora eu só preciso sobreviver a este sofá.

(A luz diminui gradualmente, focando apenas no rosto de Clara, que permanece de olhos abertos, fixos no nada, enquanto o som do relógio se torna ensurdecedor.)

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